{"schema":"wiki.casos-public-original.v1","id":135364,"origem":"stj","sha256_origem":"2b19658a95ab3994dc429db19554c31f1b459003fd1ffef1313c23fd4a412262","registro_original":{"id_fonte":"1432756","tribunal":"STJ","orgao_julgador":"TERCEIRA TURMA","classe":"AgInt no REsp","classe_descricao":"AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL","numero_processo":"2166514","numero_registro":"202403216627","relator":"DANIELA TEIXEIRA","data_julgamento":"2026-06-01","data_publicacao":"2026-06-08","tipo_decisao":"ACÓRDÃO","ementa":"DIREITO PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. FRAUDE\n BANCÁRIA. GOLPE DA FALSA CENTRAL DE ATENDIMENTO. OPERAÇÕES ATÍPICAS\n VIA EMPRÉSTIMO E PIX. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DA INSTITUIÇÃO\n FINANCEIRA. CULPA CONCORRENTE AFASTADA. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO.\n I. Caso em exame\n 1. Agravo interno interposto por instituição financeira contra\n decisão monocrática que deu provimento ao recurso especial da\n consumidora para restabelecer sentença que condenou o banco ao\n ressarcimento integral dos prejuízos decorrentes de fraude bancária\n praticada por terceiros, na modalidade \"golpe da falsa central de\n atendimento\", envolvendo contratação de empréstimo e transferências\n via Pix em sequência e em valores vultosos.\n 2. Acórdão de origem reconheceu: (i) ocorrência de fraude bancária;\n (ii) realização de operações em curtíssimo espaço de tempo; (iii)\n incompatibilidade das transações com o perfil de consumo da\n correntista e (iv) falha da instituição financeira em adotar\n mecanismos de segurança capazes de impedir ou mitigar o prejuízo,\n mas concluiu pela culpa concorrente da consumidora por ter instalado\n aplicativo de acesso remoto e seguido orientações dos fraudadores.\n 3. A decisão monocrática afastou a culpa concorrente, qualificou a\n fraude como fortuito interno, reconheceu defeito na prestação do\n serviço bancário em razão da validação de transações flagrantemente\n atípicas e aplicou a responsabilidade objetiva integral da\n instituição financeira, com base no art. 14 do CDC e na\n jurisprudência desta Corte, restabelecendo a sentença de\n procedência.\n II. Questão em discussão\n 4. Há três questões em discussão: (i) saber se a decisão\n monocrática, ao afastar a culpa concorrente da consumidora e\n reconhecer o fortuito interno, violou o óbice da Súmula 7/STJ por\n suposto reexame do conjunto fático-probatório ou alteração da\n moldura fática fixada pelo Tribunal de origem; (ii) saber se, em\n fraude bancária na modalidade \"falsa central de atendimento\", em que\n as operações contestadas são manifestamente atípicas em relação ao\n padrão de consumo da correntista e não foram bloqueadas pelos\n mecanismos de segurança, é juridicamente possível reconhecer culpa\n concorrente do consumidor, à luz do art. 14, § 3º, II, do CDC e do\n art. 945 do Código Civil; (iii) saber se o dever de segurança\n imposto às instituições financeiras abrange a criação e o\n aprimoramento de sistemas capazes de identificar e impedir\n transações suspeitas (notadamente empréstimos e transferências via\n Pix de alto valor em curto intervalo de tempo), de modo a\n caracterizar defeito na prestação do serviço quando tais mecanismos\n se mostram ineficazes.\n III. Razões de decidir\n 5. A decisão agravada não incidiu na vedação da Súmula 7/STJ, pois\n não reexaminou provas nem alterou os fatos fixados pelo Tribunal de\n origem, limitando-se a reenquadrar juridicamente premissas fáticas\n incontroversas: existência de fraude, operações sucessivas em\n curtíssimo espaço de tempo, valores vultosos destoantes do histórico\n da correntista e falha do banco em adotar providências cautelares,\n inclusive por comunicar movimentação suspeita apenas após consumado\n o prejuízo.\n 6. A insurgência da instituição financeira busca transformar questão\n de direito em matéria probatória, pois o núcleo do debate reside em\n definir se, uma vez evidenciada a falha do sistema de segurança\n diante de operações flagrantemente atípicas, é juridicamente cabível\n imputar culpa concorrente à consumidora pelo simples fato de ter\n sido induzida por engenharia social, o que configura mera\n qualificação jurídica dos fatos já delineados.\n 7. O acórdão recorrido, embora tenha consignado que a consumidora\n instalou aplicativo e permitiu acesso remoto ao celular, também\n reconheceu, de forma inequívoca, a existência de defeito na\n prestação do serviço bancário, consistente na validação de\n transações atípicas incompatíveis com o padrão de consumo e na\n ausência de medidas cautelares para proteger a conta, o que afasta a\n excludente de responsabilidade prevista no art. 14, § 3º, II, do\n CDC.\n 8. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, especialmente\n em casos de \"golpe da falsa central de atendimento\" e fraudes\n eletrônicas correlatas, firmou entendimento de que a prévia ciência\n dos dados bancários pelos fraudadores, somada à falha da instituição\n em detectar e bloquear movimentações atípicas, caracteriza fortuito\n interno e defeito na prestação do serviço, afastando culpa\n exclusiva ou concorrente do consumidor.\n 9. Compete às instituições financeiras desenvolver, manter e\n aperfeiçoar mecanismos inteligentes de prevenção e bloqueio de\n fraudes, capazes de identificar transações que fogem ao perfil do\n cliente, considerando valor, sucessividade, lapso temporal, meio\n utilizado, horário, local e contratação de empréstimos atípicos; a\n validação de operações suspeitas, em sequência e de alto valor,\n evidencia vulnerabilidade do sistema bancário e configura falha no\n dever de segurança.\n 10. A indução da vítima por engenharia social, ainda que tenha\n contribuído para a dinâmica da fraude, não elimina o defeito do\n serviço quando demonstrado que o banco não identificou nem impediu\n operações manifestamente incompatíveis com o histórico da conta,\n circunstância que atrai a responsabilidade objetiva integral da\n instituição financeira, nos termos do art. 14 do CDC e da Súmula\n 479/STJ, sendo incabível a aplicação do art. 945 do Código Civil\n para reduzir a indenização com fundamento em culpa concorrente.\n 11. Em coerência com precedentes desta Corte que reconhecem a\n responsabilidade objetiva das instituições financeiras por fraudes\n bancárias decorrentes de fortuito interno e falhas nos sistemas de\n prevenção, e que exigem análise do padrão de consumo do correntista\n para validação de transações, impõe-se a manutenção da decisão que\n restabeleceu a sentença de procedência, com o ressarcimento integral\n dos prejuízos sofridos pela consumidora.\n IV. Dispositivo\n 12. Agravo interno não provido.","dispositivo":"Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas,\n acordam os Ministros da TERCEIRA TURMA do Superior Tribunal de\n Justiça, em Sessão Virtual de 26/05/2026 a 01/06/2026, por\n unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto da Sra.\n Ministra Relatora.\n Os Srs. Ministros Humberto Martins, Ricardo Villas Bôas Cueva e\n Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.\n Presidiu o julgamento a Sra. Ministra Daniela Teixeira.\n Não participou do julgamento a Sra. Ministra Nancy Andrighi.","inteiro_teor":"","inteiro_teor_url":"","dispositivos_citados_urn":[],"sumulas_citadas":[],"referencias_legislativas_brutas":[],"jurisprudencia_citada":"","tema":"","fonte_url":"https://dadosabertos.web.stj.jus.br/dataset/74a99dea-a197-4d73-a169-d8c8f8f0b175/resource/e307c28b-8e6b-4af6-832e-6c3415092b76/download/20260630.json","coletado_em":"2026-09-09T12:52:51Z","sha256_conteudo":"e5d485a01cf01b723a8eee90c57373940251b4af4d532c653c701039c5206401","base_legal":"Lei 9.610/98 art. 8o, IV; CPC art. 189; dataset STJ sob Creative Commons Atribuicao","nivel_sigilo":null},"registro_original_integral":true,"campos_identificadores_removidos":[],"formato_caminhos_removidos":"JSON Pointer"}
