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# Confiei um bem e não me devolvem: quando há crime

Por Rafael Toledo, OAB/RJ 227191 · revisado em 2026-08-26

Você emprestou um objeto, deixou uma quantia sob a guarda de alguém ou entregou um bem para ser cuidado — e a pessoa simplesmente não devolve. A dúvida que surge é direta: isso é só um calote ou é crime?

A resposta depende de um ponto específico: como a pessoa recebeu o bem e o que ela fez com a confiança que você depositou. É aí que entra a apropriação indébita, um crime muitas vezes confundido com furto e com estelionato.

## O que é apropriação indébita no artigo 168 do Código Penal

O [artigo 168](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm) do [Código Penal](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm) pune quem se apropria de coisa alheia móvel de que tem a posse ou a detenção. A palavra-chave é a inversão da posse: a pessoa recebeu o bem de forma lícita, com a sua autorização, mas depois passa a agir como se fosse dona, recusando-se a devolver ou dando outro destino ao que era seu.

Repare que não há subtração escondida nem engano no início. Você entregou de livre vontade, confiando. O crime nasce no momento em que essa confiança é quebrada e o detentor decide ficar com o bem que deveria restituir.

## Por que isso não é furto nem estelionato

A diferença fica clara ao comparar. No furto, do artigo 155, o bem é subtraído sem o seu consentimento, às escondidas. No estelionato, do artigo 171, a fraude vem antes: a pessoa engana você para que entregue o bem, já com a intenção de não devolver.

Na apropriação indébita, ao contrário, não há fraude prévia nem subtração. A entrega foi legítima e de boa-fé; o desvio surge depois. Essa cronologia — o momento em que a má intenção aparece — é o que define qual crime descreve o seu caso, e por isso deve ser relatada com cuidado.

## Um exemplo concreto: o carro deixado para venda

Imagine que você entrega o seu carro a um conhecido que se ofereceu para vendê-lo, combinando repassar o valor assim que fechar negócio. Ele vende, recebe o dinheiro e, a partir daí, sempre adia a entrega do valor, muda de assunto e depois some.

Esse é o retrato clássico da apropriação indébita: a posse do bem, ou do dinheiro da venda, foi confiada de forma lícita, e o crime surge quando o intermediário decide ficar com o que não é dele. Se, ao contrário, ele já pretendia não repassar nada desde o começo, o caso pode escorregar para o estelionato — mais uma razão para descrever a sequência dos fatos com precisão.

## O sinal decisivo: a recusa clara em devolver

Um atraso ou uma desculpa isolada nem sempre configuram crime. O que caracteriza a apropriação é a demonstração inequívoca de que a pessoa não pretende devolver: ignora cobranças, nega ter recebido, vende o bem ou se desfaz dele.

Por isso, antes de falar em crime, é prudente formalizar a cobrança. Uma notificação por escrito, uma mensagem clara pedindo a devolução em prazo determinado e a resposta que você receber ajudam a evidenciar a recusa e servem de prova de que houve apropriação, e não um simples mal-entendido.

## Caminhos para agir: extrajudicial, criminal e cível

O primeiro caminho é o extrajudicial: notifique a pessoa exigindo a restituição, de preferência por meio que gere comprovante. Muitas situações se resolvem quando fica claro que você está disposto a levar o caso adiante.

Se a recusa persistir, é possível registrar a ocorrência para apuração criminal da apropriação indébita e, em paralelo, buscar na esfera cível a devolução do bem ou o equivalente em dinheiro, além de eventuais perdas e danos. Quando pagar honorários não é viável, a Defensoria Pública esclarece de graça como reunir os comprovantes e por onde começar cada uma dessas frentes.

## Perguntas frequentes

### Emprestei dinheiro a um amigo e ele não paga. É apropriação indébita?

Em geral, não. Empréstimo de dinheiro que vira inadimplência é dívida civil, cobrável na Justiça, mas não crime. A apropriação indébita exige a posse de um bem determinado que deveria ser restituído e não foi, não a simples falta de pagamento de um empréstimo.

## Proveniência

- [Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), art. 168](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm#art168) — verificado em 2026-07-08 · Fonte oficial usada como referência e proveniência.
  - Sustenta nesta página: Define a apropriação indébita como apropriar-se de bem de que se tem posse ou detenção lícita.
- [Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), art. 155](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm#art155) — verificado em 2026-07-08 · Fonte oficial usada como referência e proveniência.
  - Sustenta nesta página: Serve de contraste: no furto há subtração sem consentimento, diferente da posse lícita.
- [Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), art. 171](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm#art171) — verificado em 2026-07-08 · Fonte oficial usada como referência e proveniência.
  - Sustenta nesta página: Serve de contraste: no estelionato a fraude é anterior à entrega, o que não ocorre na apropriação.

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Conteúdo informativo; não substitui a análise individual de um advogado sobre o seu caso.

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- [Página deste tema na rede social do portal](https://wikijuridica.com.br/redesocial/tema/criminal/apropriacao-indebita-nao-devolveu/index.md)

Conteúdo de autoria de Rafael Toledo, advogado responsável técnico pela publicação, elaborado a partir de fontes oficiais verificadas e citadas.

## Como citar esta página

Rafael Toledo, OAB/RJ 227191. Confiei um bem e não me devolvem: quando há crime. Wiki Jurídica. 2026-08-26. https://wikijuridica.com.br/criminal/apropriacao-indebita-nao-devolveu/

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