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# Da escolha do veículo societário ao contrato individual de outorga

Por Rafael Toledo, OAB/RJ 227191 · revisado em 2026-08-26

Oferecer participação futura ao time é a forma mais comum de competir por talento sem queimar caixa. O instrumento tem previsão legal expressa: a [Lei 6.404/1976](https://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:lei:1976-12-15;6404) admite, no [art. 168, § 3º](https://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:lei:1976-12-15;6404), que o estatuto preveja a outorga de opção de compra de ações a administradores, empregados ou pessoas naturais que prestem serviços à companhia, dentro do limite do capital autorizado e conforme plano aprovado pela assembleia geral.

Daí uma consequência que costuma surpreender fundadores: o desenho clássico pressupõe sociedade por ações.

## Etapa 1 — verificar se o tipo societário comporta o plano

A maioria das startups nasce como sociedade limitada, e limitada não tem ações nem capital autorizado.

Existem três caminhos. Transformar a sociedade em companhia fechada, com previsão estatutária de capital autorizado — é o desenho que a lei traçou e o que investidores institucionais esperam encontrar.

Adaptar o instrumento à limitada por contrato atípico, com opção de compra de quotas. É possível, mas encontra atritos: a cessão a terceiro estranho depende da anuência de sócios titulares de mais de um quarto do capital quando o contrato social é omisso, e cada exercício exige alteração contratual registrada.

Ou postergar, adotando por ora um bônus atrelado à valorização, sem entrada no capital.

A escolha define todo o resto, e fazer a transformação antes de outorgar evita retrabalho.

## Etapa 2 — aprovar o plano e definir o pool

O plano é o documento-mãe: aprovado em assembleia, ele fixa as regras gerais que valerão para todas as outorgas.

Defina o tamanho total do pool — a fatia do capital reservada ao programa —, usualmente entre cinco e quinze por cento, considerando o horizonte de contratações até a próxima rodada.

Estabeleça a elegibilidade: cargos, tempo mínimo de casa, critério de indicação e quem aprova cada outorga.

Determine o prazo de vigência do plano, o órgão responsável por administrá-lo e os limites da sua discricionariedade.

Deixe claro que a participação no plano é voluntária e onerosa, que não integra a remuneração e que o benefício está sujeito a risco — pontos que serão decisivos na discussão tratada mais adiante sobre a natureza do instituto.

## Etapa 3 — definir preço de exercício e cronograma

São os dois parâmetros que o beneficiário efetivamente enxerga.

O preço de exercício deve corresponder a um valor economicamente defensável na data da outorga — normalmente o valor patrimonial ajustado ou o preço da última rodada, com eventual desconto justificado. Preço simbólico enfraquece a onerosidade e, com ela, todo o argumento sobre a natureza mercantil do plano.

O cronograma de aquisição do direito distribui as opções ao longo do tempo. O padrão de mercado é de quatro anos, com carência inicial de doze meses — nada é adquirido antes desse marco, e depois dele a aquisição passa a ser mensal ou trimestral.

Defina também o prazo para exercer as opções já adquiridas, contado da aquisição, e o preço permanece congelado nesse intervalo.

Documente a metodologia de avaliação usada. Ela será questionada, e ter registro do critério aplicado na data resolve a discussão antes que ela comece.

## Etapa 4 — regular a saída e as hipóteses de aceleração

É onde os planos mal escritos falham.

Defina a janela para exercício após o desligamento — trinta, sessenta ou noventa dias são comuns —, sabendo que janelas curtas obrigam o beneficiário a desembolsar rapidamente e, na prática, esvaziam o benefício de quem não tem caixa.

Diferencie as hipóteses de saída. Desligamento sem justa causa, pedido de demissão, aposentadoria, invalidez e falecimento merecem tratamentos distintos, e a saída por falta grave costuma acarretar a perda inclusive das opções já adquiridas e não exercidas.

Preveja a aceleração do cronograma em evento de liquidez — venda do controle, incorporação, oferta pública —, definindo se ela é integral ou parcial e se depende de o beneficiário permanecer por período após a operação.

E trate dos ajustes por eventos societários: desdobramento, grupamento, bonificação e novas emissões devem gerar correção automática da quantidade e do preço, sob pena de o benefício se dissolver na primeira rodada.

## Etapa 5 — formalizar a outorga individual

O plano é geral; o contrato de outorga é individual e é ele que cria o direito.

Cada instrumento deve conter a quantidade de opções, o preço de exercício, a data de início do cronograma, as datas de aquisição, o prazo de exercício, a referência ao plano aprovado e a declaração de ciência das suas regras.

Colete a assinatura e arquive. Quem perde esse controle chega à rodada sem demonstrar o próprio quadro de diluição potencial, o que atrasa operações e reduz avaliação.

Mantenha um mapa atualizado de outorgas: beneficiário, quantidade, adquiridas, exercidas, canceladas e saldo do pool. É o documento que o investidor pede na auditoria prévia e o que permite ao fundador saber, a qualquer momento, quanto do capital já está comprometido.

## Etapa 6 — cuidar do que descaracteriza o plano

Três práticas transformam um plano de opções em discussão remuneratória, com reflexos trabalhistas e previdenciários.

A primeira é a ausência de risco: garantia de recompra por preço mínimo ou de retorno assegurado elimina a álea, e sem álea o instrumento se aproxima de salário.

A segunda é a gratuidade: opção outorgada sem desembolso, com preço simbólico ou com pagamento custeado pela própria empresa, perde a onerosidade que a caracteriza.

A terceira é a habitualidade atrelada a desempenho individual: outorgas mensais, calculadas como percentual da remuneração e vinculadas a metas pessoais, funcionam como bônus e tendem a ser lidas como tal.

Mantenha o plano voluntário, oneroso, sujeito a risco e desvinculado da folha — e registre por escrito essas características, porque a documentação do desenho é o que sustenta o enquadramento anos depois. Estruturar o plano e as minutas de outorga é trabalho jurídico específico, contratável por meio digital, e sai muito mais barato antes da primeira outorga do que depois da primeira reclamação.

## Perguntas frequentes

### O plano precisa ser oferecido a todos os colaboradores?

Não. A lei permite outorga a administradores, empregados e prestadores de serviços pessoas naturais, sem exigir universalidade, desde que os critérios de elegibilidade estejam previstos no plano aprovado e sejam aplicados de forma coerente.

## Proveniência

- [Lei nº 6.404 de 15/12/1976](https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6404compilada.htm) — verificado em 2026-08-04 · Fonte oficial usada como referência e proveniência.

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Conteúdo informativo; não substitui a análise individual de um advogado sobre o seu caso.

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Conteúdo de autoria de Rafael Toledo, advogado responsável técnico pela publicação, elaborado a partir de fontes oficiais verificadas e citadas.

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