Paguei o falso parente do número novo: os caminhos depois da transferência

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 5 fontes oficiais verificadas

“Oi, mãe. Troquei de número, esse aqui é o novo.” A foto do perfil é a do seu filho, a conversa imita o jeito dele de escrever e, em poucos minutos, surge um boleto prestes a vencer ou um pedido de Pix urgente. Você transfere — e só percebe a fraude quando liga para o número antigo e ouve que ninguém pediu dinheiro algum. Nenhuma conta sua foi invadida: o golpe inteiro nasceu numa conversa nova, montada com uma foto pública e um roteiro de urgência. Esse detalhe muda o mapa jurídico. Como foi você quem autorizou a transferência, a reação eficaz combina três frentes: a devolução dentro do arranjo do Pix, a identificação de quem recebeu e, em hipóteses específicas, a responsabilização do banco. A ordem dos passos importa, e as primeiras horas valem mais do que as semanas seguintes.

A conversa nova com foto antiga: por que ninguém invadiu nada

Diferentemente do WhatsApp clonado, aqui o criminoso não tomou a conta de ninguém: ele criou um número novo, colocou a foto do seu parente — copiada de rede social aberta — e disparou mensagens para contatos garimpados. Quem paga é você, por vontade própria, ainda que uma vontade fabricada pelo engano.

Pense em Regina, que recebeu à noite a mensagem do “filho” pedindo R$ 2.400 para cobrir uma fatura que venceria em minutos. Ela pagou, o número sumiu e o filho verdadeiro só soube na manhã seguinte. O que Regina precisa guardar forma o tripé de prova: a captura da conversa com o número do golpista visível, que demonstra o ardil; o comprovante da transferência, que identifica a conta de destino; e o registro de ocorrência, que formaliza a fraude perante bancos e autoridades. Sem o primeiro, falta o engano; sem o segundo, falta o rastro do dinheiro; sem o terceiro, falta o selo oficial que os demais pedidos vão exigir.

Devolução no arranjo do Pix: a corrida das primeiras horas

Avise o seu banco imediatamente, pelo aplicativo ou pela central, e peça o registro de notificação de infração — é esse registro que abre o pedido de devolução por fraude previsto no regulamento do Pix. As janelas para acionar esse fluxo são curtas e contadas da data da transferência; os prazos vigentes estão na página oficial do Pix mantida pelo Banco Central.

O ponto fraco do mecanismo é aritmético: só se recupera o que ainda estiver na conta de destino no momento do bloqueio. Quadrilhas pulverizam o valor em minutos, transferindo para outras contas ou sacando. Por isso a pressa não é retórica — cada hora reduz o saldo alcançável.

Fraude eletrônica: o peso do art. 171, §2º-A, do Código Penal

O caso configura estelionato — obter vantagem ilícita mantendo alguém em erro, art. 171 do Código Penal. Quando o engano é construído por redes sociais, contatos telefônicos ou mensagens, com informações fornecidas pela própria vítima ou por terceiro induzido a erro, incide a forma qualificada do §2º-A, incluída pela Lei 14.155/2021, com pena de reclusão de quatro a oito anos.

Registre a ocorrência na delegacia ou pela delegacia eletrônica do seu estado, anexando as capturas e o comprovante. A investigação consegue o que você não consegue sozinho: quebrar o sigilo da linha usada e identificar quem movimentou a conta beneficiária.

Do comprovante ao dono da conta: a cobrança de quem recebeu

O titular da conta que recebeu o Pix — ainda que se diga “laranja” — pode ser cobrado civilmente. O fundamento é o art. 884 do Código Civil: quem se enriquece sem justa causa à custa de outrem é obrigado a restituir. A pretensão de ressarcimento por enriquecimento sem causa prescreve em três anos, contados do pagamento.

Para valores de até vinte salários mínimos, o juizado especial cível admite pedido sem advogado, nos termos da Lei 9.099/1995; acima disso, a assistência é obrigatória. A identificação completa do titular costuma vir por ofício judicial ao banco recebedor. Estruturar essa cadeia — notificação, ofício, cobrança — é tarefa que um advogado com prática em fraudes por transferência pode assumir desde o primeiro protocolo, recebendo os documentos por canal digital e atuando onde o caso estiver.

E o banco? O divisor entre falha do serviço e golpe externo

Como a transferência partiu de você, os bancos costumam invocar a culpa exclusiva de terceiro, prevista no art. 14, §3º, do Código de Defesa do Consumidor, para afastar a própria responsabilidade — e, quando o golpe correu inteiramente fora do sistema bancário, essa defesa tende a prevalecer. O pedido contra o banco pagador raramente prospera se não houver falha identificável.

O cenário muda quando a instituição que hospeda a conta beneficiária tolerou movimentação atípica — dezenas de transferências recebidas e esvaziadas em sequência — ou quando ignorou notificações anteriores contra o mesmo correntista. Nesses casos, discute-se defeito do serviço, e a pretensão de reparação segue o prazo de cinco anos do art. 27 do CDC, contado do conhecimento do dano e de sua autoria.

Perguntas frequentes

Meu filho, que teve a foto usada, corre algum risco ou deve fazer algo?

Ele também é vítima: o uso da imagem para fraude autoriza registro de ocorrência próprio e um alerta público aos contatos. Ele não responde por valores que terceiros pagaram ao golpista.

Muda algo se a conta do golpista for de banco digital?

Na essência, não: instituições digitais integram o arranjo do Pix e recebem as mesmas notificações de infração. A diferença prática está na velocidade de resposta de cada uma ao bloqueio.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.