STJ — 879143
Proveniência: STJ — acórdãos públicos. SHA-256 da fonte preservada: 47b0e80862a7fbb08908d7eeed8f2c2f54f88778c27a4e01cec46f9c9f2ab913
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Assunto e questão jurídica conforme a ementa oficial
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. TRÁFICO DE DROGAS ILÍCITAS. INIDONEIDADE DO REPUTADO PERICULUM LIBERTATIS. RECURSO DO MP/GO NÃO PROVIDO.
Fundamentos transcritos da ementa — itens numerados pelo STJ
- Como registrado na decisão impugnada, a qual nesta oportunidade se confirma, a prisão preventiva tratada nos autos foi imposta em função da reputada gravidade do crime de tráfico de drogas ilícitas, caracterizado pela apreensão de 20kg de material que continha cocaína e de petrechos para a fabricação desse tóxico proscrito.
- Entretanto, a fundamentação da custódia processual alicerçada na simples aparência do delito é, evidentemente, nula. Em adição a isso, da leitura dos autos, não se extraem elementos concretos a demonstrar a imprescindibilidade da prisão preventiva, sob a ótica do periculum libertatis, pois não se identifica notável risco à ordem pública ou à aplicação da lei penal, especialmente em se tratando de réu primário, até então apenas investigado por crime que não envolve violência ou grave ameaça, sem registro de que integre organização criminosa, cujos petrechos supostamente utilizados para a fabricação dos entorpecentes ilegais já foram apreendidos.
- Adicionalmente, vale consignar três pontos relevantes: (i) que as instâncias ordinárias não registraram indícios de autoria para além do fato de a droga ter sido apreendida no imóvel em que o ora investigado se encontrava; (ii) que o laudo se referiu a "20kg de material que continha cocaína", o que absolutamente não pode ser compreendido como sinônimo de "20 kg de cocaína", impedindo concluir que a quantidade de droga seja reveladora de excepcional gravidade concreta; e (iii) que o auto de prisão em flagrante não permite inferir a legitimidade da prisão em flagrante e, portanto, das evidências obtidas no interior da residência dos investigados, na medida em que não consta ter havido autorização de morador para o ingresso no imóvel, tampouco ação policial escudada por flagrante prévio ou mandado judicial.
- No caso em tela, ao considerar que a gravidade abstrata do tráfico de drogas ilícitas impediria o ora agravado de responder a eventual ação penal em liberdade, as instâncias ordinárias parecem haver se divorciado da orientação constante em incontáveis precedentes desta Corte, para os quais a prisão cautelar é invariavelmente excepcional, subordinando-se à demonstração de sua criteriosa imprescindibilidade, à luz dos fatos concretos da causa, e não em relação à percepção do julgador a respeito da gravidade abstrata do tipo penal.
- De fato, o aparente cometimento do delito, por si só, não evidencia "periculosidade" exacerbada do agente ou "abalo da ordem pública", a demandar a sua segregação antes de qualquer condenação definitiva.
- Também vale reforçar que determinadas quantidades de tóxicos ilegais, ainda que não possam ser consideradas insignificantes, não autorizam, isoladamente, a conclusão de que o réu apresenta periculum libertatis.
- Mesmo elevada quantidade de entorpecentes apreendidos, por si só, não poderia justificar o cárcere, especialmente em caso de réu primário e sem indicação de integrar organização criminosa.
- Efetivamente, as instâncias ordinárias não apontaram elementos validamente reveladores de que a liberdade provisória do ora agravado ofenderia a ordem pública, valendo resumir que se trata de réu primário, investigado por crime que não envolve violência ou grave ameaça, que não há notícia de envolvimento com organização criminosa, que as instâncias ordinárias não explicitaram a justificativa para o ingresso policial na residência, que os indícios de autoria se resumem à presença dos réus no imóvel em cujos fundos as instalações empregadas na fabricação da droga teriam sido localizadas e que esses petrechos já foram apreendidos.
- Assim, apesar dos argumentos apresentados pelo órgão ministerial, não há elementos que justifiquem a reconsideração do decisum.
- Agravo regimental do MP/GO não provido.
Trechos literais, sem inferência de tese ou aplicação automática ao caso de terceiros.
Ementa
AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PRISÃO PREVENTIVA. TRÁFICO DE
DROGAS ILÍCITAS. INIDONEIDADE DO REPUTADO PERICULUM LIBERTATIS.
RECURSO DO MP/GO NÃO PROVIDO.
1. Como registrado na decisão impugnada, a qual nesta oportunidade
se confirma, a prisão preventiva tratada nos autos foi imposta em
função da reputada gravidade do crime de tráfico de drogas ilícitas,
caracterizado pela apreensão de 20kg de material que continha
cocaína e de petrechos para a fabricação desse tóxico proscrito.
2. Entretanto, a fundamentação da custódia processual alicerçada na
simples aparência do delito é, evidentemente, nula. Em adição a
isso, da leitura dos autos, não se extraem elementos concretos a
demonstrar a imprescindibilidade da prisão preventiva, sob a ótica
do periculum libertatis, pois não se identifica notável risco à
ordem pública ou à aplicação da lei penal, especialmente em se
tratando de réu primário, até então apenas investigado por crime que
não envolve violência ou grave ameaça, sem registro de que integre
organização criminosa, cujos petrechos supostamente utilizados para
a fabricação dos entorpecentes ilegais já foram apreendidos.
3. Adicionalmente, vale consignar três pontos relevantes: (i) que as
instâncias ordinárias não registraram indícios de autoria para além
do fato de a droga ter sido apreendida no imóvel em que o ora
investigado se encontrava; (ii) que o laudo se referiu a "20kg de
material que continha cocaína", o que absolutamente não pode ser
compreendido como sinônimo de "20 kg de cocaína", impedindo concluir
que a quantidade de droga seja reveladora de excepcional gravidade
concreta; e (iii) que o auto de prisão em flagrante não permite
inferir a legitimidade da prisão em flagrante e, portanto, das
evidências obtidas no interior da residência dos investigados, na
medida em que não consta ter havido autorização de morador para o
ingresso no imóvel, tampouco ação policial escudada por flagrante
prévio ou mandado judicial.
4. No caso em tela, ao considerar que a gravidade abstrata do
tráfico de drogas ilícitas impediria o ora agravado de responder a
eventual ação penal em liberdade, as instâncias ordinárias parecem
haver se divorciado da orientação constante em incontáveis
precedentes desta Corte, para os quais a prisão cautelar é
invariavelmente excepcional, subordinando-se à demonstração de sua
criteriosa imprescindibilidade, à luz dos fatos concretos da causa,
e não em relação à percepção do julgador a respeito da gravidade
abstrata do tipo penal.
5. De fato, o aparente cometimento do delito, por si só, não
evidencia "periculosidade" exacerbada do agente ou "abalo da ordem
pública", a demandar a sua segregação antes de qualquer condenação
definitiva.
6. Também vale reforçar que determinadas quantidades de tóxicos
ilegais, ainda que não possam ser consideradas insignificantes, não
autorizam, isoladamente, a conclusão de que o réu apresenta
periculum libertatis.
7. Mesmo elevada quantidade de entorpecentes apreendidos, por si só,
não poderia justificar o cárcere, especialmente em caso de réu
primário e sem indicação de integrar organização criminosa.
8. Efetivamente, as instâncias ordinárias não apontaram elementos
validamente reveladores de que a liberdade provisória do ora
agravado ofenderia a ordem pública, valendo resumir que se trata de
réu primário, investigado por crime que não envolve violência ou
grave ameaça, que não há notícia de envolvimento com organização
criminosa, que as instâncias ordinárias não explicitaram a
justificativa para o ingresso policial na residência, que os
indícios de autoria se resumem à presença dos réus no imóvel em
cujos fundos as instalações empregadas na fabricação da droga teriam
sido localizadas e que esses petrechos já foram apreendidos.
9. Assim, apesar dos argumentos apresentados pelo órgão
ministerial, não há elementos que justifiquem a reconsideração do
decisum.
10. Agravo regimental do MP/GO não provido.
Dispositivo transcrito
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima
indicadas, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal
de Justiça, em sessão virtual de 05/03/2024 a 11/03/2024, por
unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr.
Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay
Neto e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto.
Jurisprudência citada no registro do STJ
(PRISÃO PREVENTIVA - GRAVIDADE ABSTRATA)
STJ - <<AgRg no RHC 133484>>-SP, <<AgRg no RHC 162708>>-SC,
<<HC 656210>>-MG
(PRISÃO PREVENTIVA - QUANTIDADE DE DROGAS - PERICULUM LIBERTATIS -
GRAVIDADE ABSTRATA)
STJ - <<AgRg no RHC 158796>>-AL, <<AgRg no HC 674164>>-SP,
<<RHC 81456>>-MG, <<HC 417514>>-SP, <<HC 409537>>-SP
(PRISÃO PREVENTIVA - QUANTIDADE DE DROGA - RÉU PRIMÁRIO - ELEMENTOS
INDICATIVOS DA DEDICAÇÃO A ATIVIDADES CRIMINOSAS)
STJ - <<RHC 126001>>-SP, <<AgRg no HC 713924>>-MS,
<<AgRg no HC 690222>>-SP, <<HC 698901>>-SP
STF - [[HC-ArG 206240]], [[HC-ArG 199737]]
Recortes literais da ementa, dispositivo e referências do STJ. Não substituem o voto ou inteiro teor ausente, nem constituem tese autoral.