Golpe do amor: buscando responsabilização depois do prejuízo

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 2 fontes oficiais verificadas

Meses de conversa diária, ligações de vídeo que sempre falhavam por um motivo diferente, e finalmente um pedido de dinheiro para uma emergência que nunca mais teve fim: quando a pessoa desaparece, o que fica não é só a mágoa, mas contas bancárias esvaziadas em nome de um relacionamento que talvez nunca tenha existido do outro lado.

Reunindo o histórico como prova antes que a conta suma

Antes de qualquer outra providência, salve integralmente as conversas (mensagens, chamadas registradas, fotos e vídeos enviados), os comprovantes de cada transferência ou depósito feito, e os dados da conta ou chave pix usada para receber os valores. Perfis de aplicativo de relacionamento ou de rede social costumam ser excluídos assim que o golpista percebe que foi identificado, então a preservação rápida dessas evidências é o que sustenta a denúncia e a eventual ação de reparação depois.

O crime de estelionato qualificado por meio eletrônico

O art. 171, §2º-A, do Código Penal trata do estelionato praticado por meio de sistema informatizado, dispositivo eletrônico ou site fraudulento, com pena mais severa do que o estelionato comum, precisamente pelo alcance e pela dificuldade de rastreamento que a internet proporciona ao golpista. A promessa de vínculo afetivo usada como instrumento para induzir alguém a erro e obter vantagem financeira indevida se enquadra nesse tipo penal, ainda que o relacionamento tenha durado meses e envolvido conversas aparentemente genuínas.

Rastreamento da conta e comunicação com o banco

Transferências feitas por pix ou depósito em conta corrente deixam rastro que a própria instituição financeira pode acionar em caráter de urgência, por meio do mecanismo especial de devolução (MED) previsto na regulamentação do Pix editada pelo Banco Central, quando a fraude é comunicada rapidamente. Quanto mais cedo o banco for notificado sobre a suspeita de golpe, maior a chance de bloqueio dos valores ainda não sacados na conta de destino, e essa comunicação deve vir acompanhada do boletim de ocorrência já registrado.

Quando a devolução do valor não é automática

Se os valores já foram sacados ou transferidos para terceiras contas pelo golpista antes da comunicação, a recuperação direta pelo banco costuma não ser possível, e o caminho passa a ser a ação judicial de reparação, ainda que a identificação do responsável seja mais difícil quando ele usou dados falsos para abrir a conta receptora. Nesses casos, a investigação policial sobre a titularidade real da conta se torna decisiva para viabilizar qualquer cobrança.

O outro lado: quando a vítima também assumiu risco conhecido

Situações em que a vítima já desconfiava da fraude, foi alertada por terceiros ou pela própria instituição financeira sobre o padrão típico de golpe e ainda assim manteve as transferências tendem a enfraquecer o pedido de reparação por eventual falha do banco em prevenir a fraude, embora não afastem a responsabilidade penal de quem aplicou o golpe.

Um exemplo: o falso militar e a encomenda presa na alfândega

Imagine alguém que conhece um suposto militar em missão no exterior por um aplicativo de relacionamento, e depois de semanas de conversa recebe um pedido de ajuda financeira para liberar uma encomenda na alfândega. Ao perceber o padrão típico de golpe e reunir prints, comprovantes de pix e o histórico completo de conversas, a vítima consegue instruir tanto o boletim de ocorrência quanto uma eventual ação de reparação contra quem for identificado como responsável pela conta recebedora.

Valor expressivo e banco irredutível: quando procurar advogado

Casos em que o valor perdido é expressivo, em que há indícios de conta receptora vinculada a uma organização de golpes recorrentes, ou em que o banco recusa qualquer devolução mesmo com comunicação rápida, costumam demandar acompanhamento por advogado particular com atendimento 100% digital, desde a organização das provas até o acompanhamento da investigação e da ação cabível.

Perguntas frequentes

O mecanismo de devolução do pix funciona mesmo depois de dias do golpe?

A chance de bloqueio é maior quando a comunicação ao banco é imediata; após dias, os valores costumam já ter sido movimentados pelo golpista, reduzindo a eficácia da devolução.

É possível identificar quem está por trás do perfil falso?

Depende da investigação policial, que pode requisitar dados de IP e de titularidade de conta às plataformas e instituições envolvidas, embora o uso de identidades falsas dificulte a identificação em muitos casos.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.