Como a Lei de Drogas distingue usuário de traficante

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 3 fontes oficiais verificadas

Um dos pontos mais decisivos de um caso envolvendo drogas é justamente qual artigo da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, vai se aplicar: o que trata do porte para uso pessoal, sem prisão, ou o que tipifica o tráfico, com pena de reclusão que pode chegar a 15 anos. A diferença entre os dois não está apenas na quantidade da substância encontrada, mas em um conjunto de circunstâncias que a própria lei manda considerar. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal mudou parte desse cenário ao julgar a descriminalização do porte de maconha para consumo próprio, o que tornou ainda mais relevante entender onde a linha é traçada.

Os critérios que separam consumo pessoal de tráfico

O artigo 28 tipifica adquirir, guardar, ter em depósito, transportar ou trazer consigo drogas para consumo pessoal, sem autorização legal. O parágrafo 2º desse mesmo artigo manda o juiz considerar a natureza e a quantidade da substância apreendida, o local e as condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias sociais e pessoais do agente, e sua conduta e antecedentes, para decidir se a posse era para uso próprio.

Não existe, no texto original da lei, um número fixo de gramas que separe automaticamente usuário de traficante: a avaliação é sempre conjunta desses elementos, salvo quando há critério jurisprudencial específico, como ocorreu com a maconha.

As penas de quem porta droga para uso próprio

Quem se enquadra no artigo 28 não está sujeito a prisão: as penas previstas são advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. A lei classifica essa conduta como infração de menor gravidade, sem cominação de pena privativa de liberdade.

Mesmo o descumprimento dessas medidas não converte a punição em prisão: a lei prevê outras consequências administrativas e processuais para esse descumprimento, não a reclusão.

O que o STF decidiu sobre a maconha em 2024

No julgamento do RE 635.659, Tema 506 da repercussão geral, concluído em junho de 2024, o Supremo Tribunal Federal declarou que o porte de cannabis sativa para uso pessoal deixou de ter natureza de infração penal, passando a ser tratado como ilícito de natureza administrativa. A decisão fixou, como critério relativo, a quantidade de até 40 gramas ou seis plantas fêmeas como indicativo de uso próprio, presunção que pode ser afastada por prova em contrário.

Esse critério vale especificamente para a maconha; para outras substâncias, continuam valendo os critérios gerais do artigo 28, parágrafo 2º, da Lei de Drogas.

A pena do tráfico e os fatores que a agravam

O artigo 33 tipifica vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, importar ou exportar drogas sem autorização legal, com pena de 5 a 15 anos de reclusão e multa. Circunstâncias como a associação a organização criminosa, o envolvimento de menor de idade ou o transporte transnacional podem aumentar substancialmente a pena aplicada.

Réus primários, sem antecedentes e sem vínculo com organização criminosa, podem ter a pena reduzida conforme critério específico da própria lei, o chamado tráfico privilegiado.

Perguntas frequentes

Depois da decisão do STF, portar maconha deixou de ser qualquer tipo de infração?

Não deixou de ter consequência: o STF retirou a natureza penal da conduta para uso pessoal, mas ela passou a ser tratada como ilícito administrativo, sujeito a medidas próprias dessa esfera, não mais a processo criminal.

A quantidade de droga apreendida sempre define se é tráfico?

Não isoladamente. A lei manda avaliar quantidade junto com outros elementos, como local, circunstâncias e antecedentes do agente, para chegar à conclusão sobre a finalidade da posse.

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