Página comercial clonada: como recuperar o perfil e conter o prejuízo à marca

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 4 fontes oficiais verificadas

Um cliente manda mensagem perguntando por que o pedido não chegou, mas a empresa nunca recebeu esse pedido. A explicação aparece rápido: existe outra página, com o mesmo nome, o mesmo logotipo e as mesmas fotos, vendendo em nome do negócio e recebendo pagamentos que nunca chegam ao caixa real. A clonagem de página comercial não é apenas um problema de imagem — é uso indevido de identidade com potencial criminal e civil ao mesmo tempo.

O enquadramento penal da clonagem

Quem cria o perfil falso para se passar pela empresa e obter vantagem — venda de produtos inexistentes, coleta de dados de clientes, desvio de pagamentos — pratica, em tese, o crime de falsa identidade previsto no art. 307 do Código Penal, que alcança quem se apresenta como outra pessoa — inclusive uma empresa — em busca de benefício indevido ou com o objetivo de prejudicar alguém. Registrar boletim de ocorrência é o primeiro passo formal, tanto para documentar o fato quanto para instruir pedidos posteriores à plataforma e à Justiça.

Como obter os registros de quem criou o perfil falso

Identificar o responsável pela página clonada normalmente exige informações que só a própria plataforma guarda — como IP de criação e dados de cadastro. O art. 22 da Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) permite que a parte interessada requeira ao juiz, para formar conjunto probatório em processo civil ou penal, que a plataforma forneça registros de conexão ou de acesso a aplicações de internet, exatamente o tipo de dado necessário para identificar quem está por trás do perfil falso.

Providências imediatas enquanto a identificação não avança

Agir rápido nesses quatro pontos costuma reduzir o número de clientes enganados enquanto o processo de remoção e identificação segue seu curso.

A reparação civil pelo prejuízo à marca

Além da via criminal, cabe ação cível pedindo a remoção definitiva do perfil, a requisição judicial dos registros para identificar o responsável e, quando houver prejuízo comprovado — clientes que compraram do perfil falso, danos à reputação da marca —, indenização por dano material e moral. Empresas com marca registrada no INPI têm argumento adicional de violação de propriedade industrial, o que reforça o pedido de urgência para remoção.

Uma padaria de bairro com página comercial ativa há anos, por exemplo, pode ver surgir um perfil idêntico oferecendo entrega com desconto agressivo e pedindo pagamento antecipado via PIX para uma chave que não pertence ao negócio. Vários clientes pagam antes de perceber o engano, e a padaria passa a receber reclamações por um serviço que nunca prestou. Nesse cenário, o prejuízo não é só de imagem: é financeiro direto para os clientes lesados e reputacional para o negócio real.

Quando a plataforma já resolve sem necessidade de ação judicial

Muitas plataformas removem perfis de personificação de marca rapidamente quando a denúncia vem acompanhada de prova de titularidade da marca original — CNPJ, registro no INPI, ou histórico de perfil verificado. Nesses casos, a via judicial só costuma ser necessária quando a remoção não resolve, quando há prejuízo financeiro relevante já concretizado, ou quando o responsável reincide criando novos perfis clonados após cada remoção.

O Tema 987 do STF e o dever da rede social diante do perfil falso

A responsabilidade das plataformas nesse cenário foi redesenhada pelo Tema 987 do STF, cujos embargos de declaração foram julgados em 2026, encerrando a controvérsia e fixando a redação definitiva da tese. Para a empresa clonada, o efeito prático é direto: a rede social notificada da existência de perfil falso ou de conta inautêntica que se faz passar pelo negócio responde civilmente se permanecer em omissão e não remover o cadastro falso em prazo razoável, sem que se exija ordem judicial para esse tipo de abuso.

Esse regime alcança os fatos ocorridos a partir de 5 de agosto de 2025, marco que o próprio Tribunal escolheu para o início dos efeitos da nova orientação. Manter uma página clonada no ar é conduta de caráter permanente, e esses atos continuados recebem a formulação atual da tese, ainda que o perfil tenha nascido antes do marco. Ficam preservadas apenas as decisões transitadas em julgado, que não se reabrem por causa do novo entendimento.

Prazo para agir e para pedir reparação

O crime do art. 307 do Código Penal prescreve, em regra, em quatro anos, conforme a pena máxima cominada e a tabela do art. 109 do mesmo código, contados da data do fato. Já a pretensão cível de reparação por dano material e moral prescreve em três anos, por força do art. 206, § 3º, V, do Código Civil. Formalizar o boletim de ocorrência e reunir as provas o quanto antes evita que o prazo se esgote e preserva evidências que a própria plataforma pode apagar com o tempo.

Perguntas frequentes

A empresa precisa ter marca registrada no INPI para agir contra a clonagem?

Não é obrigatório; mesmo sem registro no INPI, a empresa pode agir com base no uso indevido de nome empresarial e na falsa identidade do art. 307 do Código Penal, embora o registro reforce a prova de titularidade.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.