Ataque de ransomware: conduzindo a comunicação do incidente sob pressão

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 1 fonte oficial verificada

Às seis da manhã, o servidor de arquivos responde com uma tela preta e um endereço para negociação. O sistema de faturamento parou, os backups mais recentes estão criptografados e alguém pergunta, com razão, se aquilo é só indisponibilidade ou se houve exfiltração de dados. Essa pergunta comanda tudo o que vem depois. Ransomware moderno costuma copiar antes de criptografar, e a diferença entre "ficamos sem acesso" e "os dados saíram" define se existe dever de comunicar titulares.

Primeiras horas: conter sem destruir prova

Isolar as máquinas afetadas da rede é prioridade, mas apagar, reinstalar ou reiniciar às pressas destrói exatamente o que vai sustentar a análise depois. Preserve imagens de disco, registros de acesso, tráfego de saída e histórico de autenticação.

Esses registros respondem à pergunta central da exfiltração: houve transferência anormal de volume para fora da rede, e em que período. Sem eles, a empresa fica sem base para afirmar que nenhum dado saiu — e afirmar isso sem lastro é o pior desfecho possível.

Em paralelo, acione o encarregado, o jurídico e a alta direção. A decisão sobre comunicar não é técnica; é decisão de risco jurídico apoiada em fato técnico.

Comunicar a autoridade nacional e o titular é dever do controlador quando o incidente de segurança puder acarretar risco ou dano relevante aos titulares — é o que estabelece o art. 48 da LGPD. O §1º detalha o conteúdo mínimo dessa comunicação: natureza dos dados afetados, informações sobre os titulares envolvidos, medidas técnicas de segurança utilizadas, riscos relacionados, motivos da demora quando houver e providências adotadas ou previstas para reverter ou mitigar os efeitos.

O §3º traz um elemento decisivo em ataques com criptografia: no juízo de gravidade, será avaliada a comprovação de que foram adotadas medidas técnicas adequadas que tornem os dados afetados ininteligíveis a terceiros não autorizados, no âmbito e nos limites técnicos dos serviços.

Quanto ao prazo, a lei remete a definição à autoridade nacional, que o fixou em regulamento próprio sobre comunicação de incidentes. Confirme o prazo vigente antes de montar o cronograma interno — ele já sofreu alteração desde a edição da lei.

Como decidir sobre risco relevante

A avaliação combina quatro variáveis: a natureza dos dados envolvidos (cadastrais, financeiros, de saúde, biométricos), o volume e a quantidade de titulares, a facilidade de identificação das pessoas a partir do que foi acessado e a probabilidade de uso danoso.

Um ataque que apenas cifrou uma base já protegida por criptografia forte, com chave fora do ambiente comprometido, tende a não gerar risco relevante de exposição — embora possa gerar outros problemas. Um ataque com evidência de cópia de tabela de clientes gera.

Documente a decisão, qualquer que seja ela. Registrar por escrito o raciocínio, quem participou, em que evidência se apoiou e quando foi tomado é o que diferencia uma escolha técnica defensável de uma omissão.

A sequência de comunicação e seus destinatários

Organize em ondas. Primeiro, a comunicação à autoridade, ainda que preliminar, com o que se sabe e o compromisso de complementar. Depois, os titulares atingidos, em texto que descreva o dado exposto e o risco concreto, com canal de dúvidas operante. Em seguida, parceiros e operadores cujos dados também transitem no ambiente, para que cumpram seus próprios deveres.

Há destinatários que costumam ser esquecidos: seguradora de risco cibernético, quando houver apólice; reguladores setoriais, em atividades supervisionadas; e autoridade policial, com o registro de ocorrência.

Exemplo: uma distribuidora sofre ataque e verifica, nos registros de rede, transferência de vários gigabytes para endereço externo nas horas anteriores à criptografia. Mesmo sem saber exatamente o conteúdo, ela comunica a autoridade com a informação disponível e prepara o aviso aos clientes cujas bases estavam naquele servidor. Aguardar a análise completa para só então comunicar transforma demora em agravante.

Erros que aumentam o passivo

O primeiro é negociar o resgate sem análise jurídica: além do risco de sanção em outras frentes, o pagamento não elimina o dever de comunicar nem garante que a cópia foi destruída. O segundo é comunicar que "nenhum dado foi afetado" antes de concluir a apuração — retificação posterior destrói credibilidade e reabre o prazo de comunicação. O terceiro é não conseguir demonstrar as medidas de segurança que existiam antes do ataque.

Esse último ponto merece destaque. O art. 46 obriga os agentes de tratamento a adotar medidas de segurança, técnicas e administrativas, aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados e de situações acidentais ou ilícitas de destruição, perda, alteração, comunicação ou qualquer forma de tratamento inadequado ou ilícito. Empresa que documentou controles, testes e políticas chega ao processo em posição inteiramente diferente daquela que só reagiu.

Conduzir essa sequência — apuração, decisão sobre comunicar, texto do aviso e interlocução com a autoridade — sob prazo curto é trabalho de advogado atuando junto ao time técnico, normalmente em regime remoto e com troca digital de evidências.

Perguntas frequentes

Indisponibilidade sem vazamento também precisa ser comunicada?

O critério do art. 48 é o risco ou dano relevante ao titular. A perda definitiva de dados que o titular precisava, por exemplo, pode gerar dano relevante mesmo sem exposição a terceiros.

Pagar o resgate dispensa a comunicação aos clientes?

Não. O pagamento não altera o fato de ter havido acesso não autorizado nem oferece garantia de destruição das cópias, e a obrigação de comunicar decorre do risco, não do desfecho da negociação.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.