Serviços incluídos no pacote de viagem que não foram prestados

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 2 fontes oficiais verificadas

O contrato dizia city tour panorâmico, jantar típico e traslado aeroporto-hotel inclusos. Na volta, o jantar nunca foi marcado e o traslado virou um aplicativo pago do próprio bolso. A agência responde que o pacote foi cumprido no essencial e oferece um voucher de desconto para a próxima viagem. Não é assim que a lei resolve. Serviço prometido e não executado é cumprimento imperfeito do contrato, e quem contratou tem três saídas à escolha — inclusive a de ficar com o que recebeu e pagar menos por isso.

Quanto vale o passeio que não aconteceu

A escolha entre reexecutar o serviço, devolver o dinheiro e abater o preço é do consumidor: o art. 20 do Código de Defesa do Consumidor coloca as três saídas em pé de igualdade e deixa a decisão com quem contratou. Quando o restante da viagem correu bem, o abatimento proporcional do inciso III costuma ser o pedido mais eficiente — você fica com o pacote e paga menos pelo que faltou.

Proporcional a quê, na prática? Ao valor do serviço ausente dentro do preço total. Se a mesma operadora vende aquele passeio avulso, esse é o parâmetro mais direto. Se não vende, a divisão pelo número de itens do roteiro ou pelo número de diárias com serviço prometido resolve a conta. E o abatimento não impede a cobrança do que foi gasto para substituir o serviço: a restituição do inciso II é expressamente ressalvada de perdas e danos.

O folheto, o e-mail de venda e o voucher fazem parte do contrato

Muita agência se defende dizendo que o roteiro era apenas ilustrativo. O art. 30 desmonta o argumento: informação ou publicidade suficientemente precisa obriga quem a veicula e integra o contrato que vier a ser celebrado. O PDF do roteiro, a página de venda, o print do anúncio e a conversa em que o vendedor confirmou "com jantar incluso" não são conversa fiada — são conteúdo contratual.

Recusado o cumprimento da oferta, o art. 35 abre outra tríade ao consumidor: exigir o cumprimento forçado nos termos anunciados, aceitar serviço equivalente ou rescindir com restituição atualizada e perdas e danos. Repare que a alternativa equivalente é opção de quem contratou, não imposição de quem vendeu.

Quem responde: a agência que vendeu, a operadora ou o receptivo local

Você não precisa descobrir de quem foi a falha antes de reclamar. Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos respondem solidariamente pela reparação, nos termos do §1º do art. 25; e o art. 34 acrescenta a responsabilidade solidária do fornecedor pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos, o que alcança o guia local e o receptivo contratado no destino.

A Lei 11.771/2008 ajuda a nomear cada figura. Pela redação dada em 2024, o art. 27 considera agência de turismo quem exerce intermediação remunerada entre prestadores, consumidores e usuários de serviços turísticos ou fornece diretamente esses serviços, e o §1º inclui aí a organização, a contratação e a operação dos serviços. Como o art. 22 obriga os prestadores ao cadastro no Ministério do Turismo e o §3º só permite prestar ou intermediar a quem esteja cadastrado, vale conferir o Cadastur antes de decidir contra quem reclamar. E o art. 34, IV, transforma em dever legal a estrita obediência aos direitos do consumidor.

Noventa dias para reclamar, e o que trava esse relógio

Serviço de viagem entra na categoria de serviço durável, e o direito de reclamar por vício aparente caduca em noventa dias, pelo art. 26, II. O §1º fixa o termo inicial no término da execução dos serviços, ou seja, no fim da viagem — não no dia em que o passeio deixou de acontecer.

Esse prazo não corre de forma cega. Pelo §2º, I, a reclamação comprovadamente formulada perante o fornecedor obsta a decadência até a resposta negativa, que precisa ser transmitida de forma inequívoca. Um e-mail à agência com protocolo, portanto, congela a contagem enquanto a empresa enrola.

Quando o serviço ausente causou prejuízo maior que o próprio preço — a perda de uma conexão paga à parte, uma diária extra de hotel, um gasto médico —, a discussão deixa de ser de vício e passa a ser de fato do serviço, com prescrição de cinco anos contados do conhecimento do dano e de sua autoria, na forma do art. 27.

O que provar, e por que cada peça importa

Declaração de outro viajante do mesmo grupo vale, e vale muito. Em pacote coletivo, o roteiro é o mesmo para todos, então a falha raramente atingiu só você.

Reclamação, fiscalização e ação judicial

O primeiro movimento é escrito e direto à agência: descrição do que foi contratado, do que não foi prestado e do pedido — abatimento, devolução ou reexecução. Esse documento vale duas vezes, porque obsta a decadência e prova que houve tentativa de solução.

Sem resposta útil, seguem dois caminhos paralelos. No plano administrativo, o Ministério do Turismo fiscaliza o cumprimento da Lei 11.771/2008, e a irregularidade cadastral pode ser levada a ele; os órgãos de defesa do consumidor cuidam da relação de consumo em si. No plano judicial, a ação de responsabilidade civil do fornecedor pode ser proposta no domicílio do autor, por permissão expressa do art. 101, I, o que evita viajar de novo para litigar.

Quando o valor do que faltou é alto ou a agência já respondeu formalmente que nada deve, a redação da cobrança e a instrução da ação ganham com advogado particular; contrato, vouchers e comprovantes seguem por mensagem.

Quando o abatimento não é devido

Nem toda frustração de roteiro vira crédito. Se o passeio foi oferecido no horário combinado e o viajante escolheu não ir, não há vício a reparar. Se a atividade foi suspensa por condição climática ou de segurança devidamente comprovada, e a operadora reagendou ou devolveu aquele item, o pedido perde objeto.

Também pesa contra quem reclama a ausência de qualquer registro: promessa feita só verbalmente no balcão de vendas, sem folheto, e-mail ou mensagem, esbarra na exigência do art. 30 de informação suficientemente precisa e efetivamente veiculada. Da mesma forma, roteiro que avisa com clareza que a ordem dos passeios pode mudar não é descumprido quando o passeio acontece em outro dia. E reclamação apresentada muito depois do retorno, sem nenhum registro escrito no meio do caminho, chega à discussão com a decadência já consumada.

Uma conta simples sobre um pacote de sete dias

Suponha um casal que compra pacote de sete dias com três passeios inclusos e traslados nos dois sentidos. No destino, um dos passeios não é realizado e o traslado de volta não aparece, obrigando a família a pagar um transporte por aplicativo.

O cálculo tem duas partes. O passeio ausente entra pelo abatimento proporcional: se a operadora vende aquele mesmo passeio avulso, o valor de duas pessoas sai do preço pago. O traslado entra como perda concreta: o recibo do transporte substituto é o prejuízo a ressarcir. Se o casal enviou e-mail à agência no dia seguinte ao traslado frustrado, a decadência ficou obstada desde então, e a discussão pode se estender bem além dos noventa dias sem risco de perda do direito.

Perguntas frequentes

A agência pode trocar o passeio por outro sem consultar o viajante?

Pode oferecer, não impor. A aceitação de serviço equivalente é uma das opções que o art. 35 coloca nas mãos do consumidor. Se a substituição foi aceita no calor do momento e o passeio oferecido era de valor claramente menor, a diferença continua discutível — desde que a discordância tenha sido registrada por escrito ainda durante a viagem.

Vale a pena aceitar voucher de desconto para uma viagem futura?

Vale se o viajante realmente pretende viajar de novo com a mesma empresa e o valor compensa. O que não se deve fazer é assinar termo com quitação ampla sobre todo o pacote em troca de um crédito pequeno: o voucher não é uma das alternativas do art. 20 e, assinada a quitação, o restante da discussão tende a se encerrar.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.