A loja insiste em vale-compras e eu quero o dinheiro de volta
Trinta e sete dias depois de deixar o aparelho na assistência, veio a proposta: um crédito no valor da compra, para usar na loja em até noventa dias. Você não quer crédito. Quer o dinheiro que pagou, porque a experiência com aquela marca e com aquela loja já foi suficiente. A boa notícia é que essa escolha, depois de esgotado o prazo de reparo, não pertence ao lojista.
Depois dos trinta dias, quem escolhe é o consumidor
O art. 18 do Código de Defesa do Consumidor organiza a garantia em duas etapas. Primeiro, o fornecedor tem a oportunidade de sanar o vício, no prazo máximo de trinta dias. Depois, se o vício não foi sanado, abre-se ao consumidor a escolha entre três alternativas: a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso; a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; ou o abatimento proporcional do preço.
Repare no verbo e no sujeito: pode o consumidor exigir. A alternativa é dele, não do fornecedor. O lojista não tem a faculdade de decidir que a solução será o crédito.
O mesmo dispositivo assegura, entre os direitos básicos, a efetiva prevenção e reparação de danos — reparação que, quando se escolhe a restituição, é em dinheiro.
Vale-compras não é restituição
A lei fala em restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada. Crédito para uso na mesma loja não é quantia: é um vínculo novo, com prazo de validade, restrições de uso e a obrigação de continuar comprando de quem já falhou.
O Código Civil ajuda a fixar o ponto ao estabelecer que as dívidas em dinheiro deverão ser pagas no vencimento, em moeda corrente e pelo valor nominal. Obrigação de devolver dinheiro se cumpre com dinheiro.
Isso não significa que o vale seja proibido. Ele é uma proposta válida, e muita gente aceita porque prefere trocar por outro produto. O que não se admite é impor o crédito como única saída, tratá-lo como se fosse a devolução legal ou condicionar a solução à aceitação dele.
Como conduzir o pedido
A sequência que funciona é curta e depende de datas.
- Registre por escrito a data em que o produto foi entregue para conserto e exija a ordem de serviço.
- Conte os trinta dias corridos a partir dessa entrega.
- Vencido o prazo sem solução, comunique por escrito qual das três alternativas você escolhe, indicando a conta para a devolução quando optar pelo dinheiro.
- Guarde a proposta de vale-compras recebida, que demonstra que a loja reconheceu o vício.
- Se o produto foi pago com cartão parcelado, informe que a devolução deve alcançar as parcelas futuras.
Comunicar a escolha por escrito é o passo que muda a conversa. A partir dele, a loja deixa de negociar uma solução e passa a descumprir uma obrigação definida.
Quando o prazo pode ser diferente
Há duas nuances que vale conhecer para não errar a contagem.
A primeira: as partes podem convencionar a redução ou a ampliação do prazo de trinta dias, dentro de limites, e essa convenção precisa ser expressa e, em contrato de adesão, feita em separado com manifestação específica do consumidor. Ampliação imposta em letra miúda não vale.
A segunda: quando se tratar de produto essencial, ou quando a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características do produto ou diminuir-lhe o valor, o consumidor pode exercer imediatamente as alternativas do art. 18, sem esperar os trinta dias. Geladeira que estraga, fogão único da casa e cadeira de rodas são exemplos clássicos de essencialidade.
Pense em quem ficou sem geladeira por vinte dias com uma criança pequena em casa: não é preciso completar o mês para exigir a restituição, e o gasto extra com alimentação estragada e refeições fora entra como perdas e danos.
Quando a proposta da loja é razoável
Dentro dos trinta dias, a loja pode consertar e não deve nada além disso. Exigir dinheiro no quinto dia, com o produto na assistência, é pedido prematuro.
Também é legítima a recusa quando o defeito decorre de mau uso comprovado, de queda ou de intervenção não autorizada.
E há o caso em que o consumidor aceita o vale e depois se arrepende: aceitação formalizada, com termo assinado, cria uma nova relação e dificulta voltar atrás, salvo se houver vício no próprio consentimento.
Quando o produto é caro, essencial para a rotina da casa ou para o trabalho, e a loja segue empurrando crédito enquanto o prazo passa, a demora deixa de ser um transtorno e vira prejuízo mensurável — situação em que um advogado particular consegue formalizar a escolha do consumidor e cobrar a devolução, conduzindo tudo por atendimento digital com notas e ordens de serviço enviadas por mensagem.
Perguntas frequentes
A loja quer descontar o tempo de uso do valor a devolver. Pode?
Na restituição por vício não sanado, a lei fala em devolução da quantia paga monetariamente atualizada, sem previsão de desconto por uso. Desconto proporcional é a lógica de outra alternativa, a do abatimento do preço, que só se aplica se for essa a sua escolha.
Escolhi a substituição e não há o mesmo modelo em estoque. O que acontece?
Não havendo produto da mesma espécie, o consumidor pode optar por outro de espécie, marca ou modelo diferente, com complementação ou restituição da diferença de preço, ou converter a escolha em restituição do valor pago.
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