Como funciona o interrogatório e o direito de ficar calado

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 4 fontes oficiais verificadas

O interrogatório é o ato em que o réu é ouvido pelo juiz sobre a acusação. A lei o trata, hoje, sobretudo como meio de defesa: mais do que uma fonte de prova para a acusação, é a chance de o acusado apresentar a sua versão. Justamente por isso, ninguém é obrigado a se autoincriminar.

O interrogatório como último ato da instrução (art. 400)

Pela sistemática atual, o interrogatório é o último ato da audiência de instrução: primeiro são ouvidas as testemunhas de acusação e de defesa, e só ao final o réu é interrogado. Essa ordem existe para que o acusado fale depois de conhecer todas as provas, exercendo a defesa com pleno conhecimento do que pesa contra ele.

O art. 185 do Código de Processo Penal exige que o interrogatório seja feito na presença do defensor, e reserva um tempo para que réu e advogado conversem em particular antes do ato. Sem defensor, o interrogatório não é válido.

O direito ao silêncio e a ausência de prejuízo

O art. 186 do Código de Processo Penal e o art. 5º, LXIII, da Constituição garantem que o réu seja informado do direito de permanecer calado. E vão além: o silêncio não pode ser interpretado em prejuízo da defesa.

Na prática, o interrogatório costuma ter duas partes: perguntas sobre a pessoa do réu e perguntas sobre os fatos. O acusado pode responder a tudo, responder só ao que quiser ou calar por completo, sem que a escolha seja usada como sinal de culpa. Essa é uma decisão estratégica que se toma com o advogado, à luz das provas já produzidas.

Quando falar ajuda e quando calar protege

Não há resposta única. Falar pode ajudar quando o réu tem uma versão consistente, apoiada em provas, capaz de esclarecer o contexto dos fatos. Pense em quem é acusado de uma agressão, mas tem mensagens e testemunhas que mostram que apenas se defendeu: nesse cenário, contar a própria versão pode reforçar a tese de legítima defesa. Calar, por outro lado, pode proteger quando qualquer resposta correria o risco de fixar contradições ou reforçar a tese da acusação.

O importante é que a escolha seja consciente e orientada. O réu que entende o direito ao silêncio decide com tranquilidade, sem a pressão de achar que o silêncio será lido como confissão, porque a lei proíbe expressamente essa leitura.

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