A fatura mostrou compras dentro do jogo que você nunca autorizou

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 2 fontes oficiais verificadas

Vinte compras em uma tarde, todas dentro do mesmo jogo, feitas por uma criança de nove anos que só queria desbloquear o próximo personagem. Esse tipo de gasto tem uma diferença jurídica importante em relação a uma compra comum: quem fez a compra, em muitos casos, não tinha capacidade legal para contratar sozinho.

A capacidade civil da criança para contratar

Pelo art. 3º do Código Civil, quem ainda não completou dezesseis anos não pratica sozinho, de forma válida, os atos da vida civil: falta à criança capacidade para contratar sem estar representada pelos pais ou por quem responde por ela. Já o art. 4º, inciso I, trata como relativamente incapazes os adolescentes entre dezesseis e dezoito anos, que podem praticar certos atos, mas de forma assistida.

O que isso significa para a validade da compra

Negócio jurídico celebrado por pessoa absolutamente incapaz, sem a devida representação, é nulo; no caso de compras feitas por criança menor de dezesseis anos dentro de um jogo, sem autorização do responsável legal, esse vício de capacidade sustenta o pedido de anulação da cobrança e devolução integral do valor.

O reforço trazido pelo Código de Defesa do Consumidor

O art. 39, inciso IV, do CDC veda ao fornecedor prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor em razão da idade para impingir produtos ou serviços; um jogo desenhado para facilitar compras por impulso, direcionado a público infantil sem barreira eficaz de autorização parental, esbarra diretamente nessa vedação.

Como pedir o estorno

A maioria das lojas de aplicativos (Google Play, App Store) tem canal específico para contestar compras feitas por menores sem autorização, geralmente pedindo o histórico de compras e a confirmação de que não houve consentimento do responsável pelo pagamento. Ativar o controle parental e exigir senha para compras evita repetição do problema enquanto o pedido de estorno é analisado.

Quando o estorno pode ser negado

Se o próprio responsável configurou o método de pagamento salvo no aparelho da criança sem qualquer bloqueio de compra, ou se já autorizou compras semelhantes anteriormente sem contestar, a loja de aplicativos pode entender que havia autorização tácita, dificultando o estorno das compras seguintes.

O papel do controle parental na análise do caso

A ausência completa de qualquer barreira de compra (senha, biometria ou confirmação por e-mail) reforça o argumento de falha do próprio desenho do aplicativo em proteger menores, sobretudo quando o jogo é classificado para o público infantil; isso pesa a favor do responsável mesmo quando ele não configurou o controle parental disponível.

Um exemplo de estorno concedido integralmente

Uma mãe percebeu, ao revisar a fatura, compras de duzentos e quarenta reais feitas em um jogo classificado para menores de doze anos, sem qualquer senha configurada no tablet usado pelo filho de oito anos. A loja de aplicativos aceitou o pedido de estorno integral após confirmar que não havia registro de autorização do titular da conta para aquelas transações.

Prevenção para não repetir o problema

Exigir confirmação por senha ou biometria para toda compra dentro de aplicativos, desvincular o cartão salvo do aparelho usado pela criança e revisar periodicamente as configurações de compra da loja de aplicativos são medidas simples que evitam a repetição do problema, além de fortalecerem qualquer pedido futuro de estorno caso uma nova compra não autorizada aconteça.

Estorno negado apesar da incapacidade civil: o que um advogado faz

Valores altos acumulados em pouco tempo, ou recusa reiterada da loja de aplicativos em processar o estorno mesmo diante da prova de incapacidade da criança, costumam justificar o acompanhamento de um advogado para formalizar o pedido de nulidade e a devolução, com toda a documentação podendo ser enviada digitalmente.

Perguntas frequentes

Funciona da mesma forma para um adolescente de dezessete anos?

É diferente: o adolescente entre dezesseis e dezoito anos é apenas relativamente incapaz, então a análise depende mais das circunstâncias concretas do que da incapacidade absoluta aplicável a crianças menores de dezesseis anos.

Proveniência

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.