Sem laudo de vistoria inicial, a cobrança de reparos na saída se sustenta?

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 3 fontes oficiais verificadas

Muitos contratos de locação são assinados sem que ninguém tire fotos ou faça um laudo detalhado do estado do imóvel na entrada. Enquanto tudo corre bem, essa ausência passa despercebida; o problema aparece na saída, quando a imobiliária apresenta um orçamento de reparos e o inquilino não tem como provar em que condições recebeu o imóvel anos antes de se mudar.

A falta do laudo não inverte o ônus automaticamente

Sem laudo de entrada, cada parte continua sujeita à distribuição do artigo 373 do CPC. Quem cobra indenização por dano deve provar o fato constitutivo de seu direito; quem alega pagamento, desgaste normal ou outro fato impeditivo, modificativo ou extintivo assume o ônus correspondente. A posição processual também importa: uma ação do locador por reparos não tem a mesma estrutura de uma ação do locatário para recuperar caução.

O artigo 22, V, obriga o locador a fornecer descrição minuciosa do estado do imóvel caso o locatário a solicite. Não é um dever incondicional de produzir laudo em toda locação. A ausência do documento reduz a qualidade da comparação para ambos, mas não cria sozinha presunção absoluta contra o proprietário.

Fato constitutivo, defesa e distribuição dinâmica

Se o locador afirma que o locatário causou uma avaria e pede o custo do reparo, em regra precisa demonstrar o estado anterior, o dano posterior, a autoria ou nexo e o valor. O locatário pode provar que o defeito já existia, decorreu de uso normal ou foi causado por terceiro. Em situações justificadas, o juiz pode distribuir o ônus de modo diverso por decisão fundamentada, dando oportunidade de a parte cumprir o encargo.

Logo, a resposta correta não é dizer que a imobiliária sempre perde por não ter laudo. Fotos do anúncio, mensagens da entrada, ordens de serviço e testemunhas podem suprir parte da lacuna, e a decisão dependerá do conjunto probatório.

Fotos, mensagens e testemunhas como prova alternativa

Na falta de um laudo formal, fotos tiradas no dia da mudança, mensagens trocadas com o locador ou a imobiliária mencionando o estado do imóvel, e até testemunhas presentes na entrega das chaves podem suprir parcialmente a ausência de vistoria. Quanto mais próxima da data de entrada essa prova alternativa for produzida, mais peso ela tende a ter na discussão.

Até fotos de anúncios do imóvel publicados antes da locação, mostrando o estado do espaço quando ainda estava disponível no mercado, podem servir como referência comparativa útil quando nenhuma outra prova foi produzida no momento da entrega.

Não existe presunção geral de imóvel sem danos

A falta de registro inicial pode tornar insuficiente uma cobrança baseada apenas em vistoria final, mas não prova que todo defeito surgiu antes da locação. Da mesma forma, a assinatura de um laudo final não substitui a comparação com o estado de entrada nem elimina a ressalva legal do desgaste normal.

A contestação deve identificar item por item: qual era o estado conhecido, qual mudança ocorreu, se ela é compatível com o tempo de uso e qual documento sustenta a conclusão. Essa análise é mais defensável do que invocar uma suposta presunção automática que a lei não estabelece.

Como reagir a uma cobrança de saída sem lastro documental

Diante de um orçamento de reparos sem qualquer laudo de entrada que sirva de comparação, vale exigir por escrito que a imobiliária demonstre, com provas concretas e específicas, que o dano cobrado não existia antes da locação começar. A ausência dessa demonstração enfraquece consideravelmente a cobrança apresentada, e deve ser apontada de forma objetiva e detalhada na resposta enviada à administradora responsável pelo imóvel.

Quando formalizar a contestação com apoio jurídico

Se a imobiliária insiste na cobrança mesmo sem qualquer prova do estado inicial do imóvel, reunir toda a documentação disponível, como fotos da mudança e mensagens antigas, e submeter o caso a um advogado particular, por WhatsApp, ajuda a estruturar a defesa e a negociar a devolução integral da caução retida sem fundamento consistente.

Em casos em que o valor retido é alto e a negociação direta não avança, essa mesma documentação também sustenta uma ação judicial de cobrança contra a imobiliária ou o locador, com pedido de devolução integral do depósito de garantia.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.