Escolher o réu certo define a justiça e a velocidade

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 1 fonte oficial verificada

Escolher contra quem processar não é detalhe processual em ação de medicamento: é o que determina se o caso corre na justiça estadual ou federal, quanto tempo leva a citação e com que rapidez uma liminar pode ser cumprida. O ponto de partida é o art. 196 da Constituição, que estabelece a saúde como direito de todos e dever do Estado — e a palavra Estado, aqui, designa o poder público em suas três esferas.

A solidariedade entre os entes federativos

A jurisprudência dos tribunais superiores consolidou que União, estados, Distrito Federal e municípios respondem solidariamente nas demandas prestacionais de saúde, de modo que o paciente pode dirigir o pedido a qualquer deles, sem necessidade de identificar previamente a quem cabe o financiamento.

A mesma orientação determina que a autoridade judicial, ao apreciar o pedido, direcione o cumprimento conforme as regras de repartição de competências administrativas e determine o ressarcimento a quem suportou o ônus financeiro. Para o paciente, o efeito prático é claro: a discussão sobre quem paga não pode paralisar o fornecimento.

Como a escolha do réu define a justiça competente

Se a União integrar o polo passivo, a competência é da justiça federal, por força da regra constitucional que atribui a esse ramo as causas em que a União for autora, ré, assistente ou oponente.

Se a demanda for dirigida apenas ao estado, ao município, ou a ambos, a competência é da justiça estadual. Em muitas comarcas, o processo pode tramitar em juizado especial da fazenda pública quando o valor comporta, o que costuma acelerar o rito.

A soma disso é uma escolha estratégica: incluir a União amplia a garantia patrimonial, mas desloca o processo para uma estrutura frequentemente mais distante e com prazos de intimação próprios.

O critério prático que costuma funcionar

Para medicamentos que integram a assistência farmacêutica básica, a dispensação é operada pelo município — e demandar o município e o estado tende a produzir cumprimento mais rápido, porque a estrutura executora está próxima.

Para medicamentos de alto custo do componente especializado, a operação é estadual, e o estado é réu natural. Para produtos não incorporados, sem qualquer política pública correspondente, a inclusão da União ganha sentido, porque a discussão envolve a decisão de incorporação em âmbito nacional.

A Lei 8.080/1990 organiza essa divisão de atribuições entre as esferas, e é ela que fornece a lógica dessa escolha.

O que a petição precisa demonstrar

Independentemente do réu escolhido, a instrução é a mesma. Laudo médico fundamentado e circunstanciado, com diagnóstico, prescrição, posologia e tempo de tratamento. Demonstração de que as alternativas disponíveis na rede foram tentadas ou são inadequadas. Comprovação de requerimento administrativo prévio e da negativa. Registro sanitário do produto no país. Demonstração da situação econômica do paciente.

Esses são, em substância, os requisitos que os tribunais superiores fixaram para as demandas de medicamento não incorporado, e a ausência de qualquer deles é a causa mais frequente de indeferimento da liminar.

A urgência e o modo de pedir

A tutela de urgência do art. 300 do Código de Processo Civil depende de dois elementos que precisam aparecer expressamente na petição: a plausibilidade do direito invocado e o risco criado pela demora. Em demanda de medicamento, o perigo se demonstra com relatório que descreva a consequência clínica da interrupção, e não com afirmação genérica de gravidade.

Peça também, expressamente, o fornecimento continuado pelo tempo do tratamento, com quantidade e periodicidade definidas, e a fixação de multa por descumprimento. Decisão que determina apenas a entrega imediata resolve um mês e reabre o problema no seguinte. Definir réu, juízo e desenho do pedido é trabalho técnico, e errar qualquer um deles custa meses. Pacientes com receita em mãos costumam confiar essa definição a advogado contratado para a causa; quem não tem condição de pagar encontra o mesmo serviço, sem custo, na Defensoria Pública do seu estado.

Erros que atrasam meses

Processar apenas o município quando o medicamento é do componente especializado estadual gera alegação de ilegitimidade e discussão preliminar. Incluir a União sem necessidade desloca o feito para a justiça federal, com nova distribuição e perda de tempo. Ajuizar sem negativa administrativa prévia abre espaço para a defesa alegar falta de interesse.

Há ainda o erro de pedir medicamento pelo nome comercial quando existe genérico ou similar disponível na rede: a decisão tende a autorizar o equivalente, e a discussão sobre marca específica exige justificativa técnica própria no laudo, que precisa explicar por que a alternativa não serve.

Perguntas frequentes

Posso incluir os três entes na mesma ação?

Pode, dada a solidariedade reconhecida nas demandas de saúde. A consequência é o deslocamento para a justiça federal, o que precisa ser pesado contra o ganho de garantia patrimonial.

Existe valor máximo para usar o juizado especial da fazenda pública?

Sim, e ele é definido pela legislação de regência dos juizados da fazenda pública, com teto expresso em salários mínimos. Acima desse valor, a ação segue para a vara comum da fazenda pública.

Proveniência

Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.