Dívidas do casal no divórcio: quais se dividem e quais não

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 2 fontes oficiais verificadas

A partilha costuma ser lembrada como divisão de bens, mas o passivo do casal — empréstimos, cartões de crédito, financiamentos pessoais — também precisa ser resolvido, e a regra para dívidas não é simplesmente dividir tudo ao meio. O Código Civil separa as dívidas conforme sua finalidade e o momento em que foram contraídas. Essa distinção importa porque, sem ela, um cônjuge pode acabar respondendo por gastos que não beneficiaram a família, ou o casal pode brigar sobre quem 'ficou' com qual dívida sem entender que a lei já dá parâmetros objetivos para essa divisão.

A regra do proveito comum no art. 1.664

O art. 1.664 do Código Civil determina que os bens da comunhão respondem pelas obrigações contraídas por qualquer dos cônjuges para atender aos encargos da família, às despesas de administração e às decorrentes de imposição legal. Isso significa que dívidas com finalidade familiar — reforma da casa, educação dos filhos, despesas médicas do casal — tendem a ser tratadas como responsabilidade comum, mesmo contraídas só em nome de um dos dois. Contas de água, luz, condomínio, escola dos filhos e financiamento do imóvel de moradia da família costumam se enquadrar diretamente nessa categoria, já que atendem diretamente às necessidades do lar comum.

Dívidas particulares que não obrigam o outro cônjuge

O art. 1.666 estabelece que as dívidas contraídas por qualquer dos cônjuges na administração de seus bens particulares e em benefício destes não obrigam os bens comuns. Um empréstimo tomado para reformar um imóvel que é bem particular de um dos cônjuges, por exemplo, tende a permanecer como responsabilidade exclusiva de quem contraiu a dívida, sem alcançar o patrimônio comum do casal.

Como provar a finalidade de uma dívida contestada

Extratos de cartão de crédito, contratos de empréstimo e comprovantes de uso do dinheiro (nota fiscal de reforma, comprovante de matrícula escolar, recibo médico) ajudam a demonstrar se a dívida beneficiou a família ou apenas um dos cônjuges individualmente. Quando não há como provar a destinação, a discussão tende a se resolver por presunções, o que reforça a importância de reunir esses comprovantes o quanto antes.

Quando a divisão do passivo é contestada com mais força

Dívidas contraídas depois da separação de fato, mesmo antes da sentença de divórcio, costumam ser tratadas como responsabilidade exclusiva de quem as contraiu, já que a comunhão de interesses do casal já havia terminado na prática. Da mesma forma, dívidas de jogo, de natureza ilícita ou claramente incompatíveis com o padrão de vida do casal tendem a não se comunicar, na forma do art. 1.659, inciso IV, que exclui obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito do casal.

Organizar o passivo antes de fechar o acordo de partilha

Levantar todas as dívidas em aberto, separando o que beneficiou a família do que foi gasto individualmente, evita que uma das partes assuma no acordo uma obrigação maior do que deveria. Um advogado de família pode revisar esse levantamento com base nos extratos enviados digitalmente, ajudando a negociar uma divisão de passivo compatível com a regra legal antes de qualquer assinatura.

Um exemplo de divisão de passivo na prática

Imagine um casal com três dívidas na separação: um empréstimo consignado usado para reformar a casa onde moravam, um cartão de crédito no nome da esposa usado majoritariamente com despesas pessoais dela e um financiamento de veículo usado por ambos no dia a dia da família. O empréstimo da reforma e o financiamento do veículo tendem a ser tratados como responsabilidade comum, enquanto o cartão de crédito com gasto individual comprovado tende a permanecer só com quem o utilizou.

Perguntas frequentes

O nome do outro cônjuge pode ser incluído numa dívida sem o seu conhecimento?

Depende do tipo de obrigação: dívidas que exigem assinatura conjunta, como financiamentos imobiliários, não podem ser contraídas sem anuência do outro cônjuge, mas cartões de crédito e empréstimos pessoais individuais costumam ser assumidos só por quem assina o contrato.

Proveniência

Conteúdos relacionados

Conteúdo informativo. Não substitui a análise individual de um advogado ou da Defensoria Pública sobre o seu caso.