Escritura pública: quando é exigida e quando o contrato particular basta

Por · Revisão: Rafael Toledo · Atualizado em 2026-08-06 · 5 fontes oficiais verificadas

Escritura pública e registro são etapas diferentes. O artigo 108 do Código Civil exige forma pública, salvo disposição legal em contrário, para negócios que constituam, transfiram, modifiquem ou renunciem a direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no país. Abaixo desse limite, a forma pública pode ser dispensada, mas o título ainda precisa cumprir os demais requisitos e ser registrável. Leis especiais também atribuem força de escritura a certos instrumentos particulares.

O artigo 108 olha o valor e a data do negócio

A comparação utiliza o maior salário mínimo vigente quando o negócio é celebrado e o valor do imóvel ou direito negociado, não apenas uma parcela declarada artificialmente. Acima do limite, a escritura é elemento de validade quando nenhuma lei especial autoriza outra forma. Abaixo dele, instrumento particular pode ser título hábil, desde que identifique partes, imóvel, preço, manifestação de vontade e demais exigências.

Dispensa de escritura não é dispensa de ITBI, qualificação registral ou registro. O contrato produz os efeitos que lhe cabem, mas, conforme o artigo 1.245 (art. 1.245) do Código Civil, a propriedade entre vivos só passa com a inscrição do título no Registro de Imóveis.

A Lei 9.514 não cobre todo financiamento bancário

O artigo 38 da Lei 9.514 admite instrumento particular com efeitos de escritura para atos e contratos referidos na própria lei ou dela resultantes, inclusive alienação fiduciária imobiliária. A exceção precisa estar ligada ao regime legal aplicável. O simples fato de um banco participar ou de o preço ser financiado não transforma qualquer minuta privada em escritura pública.

Outras leis especiais podem conferir força semelhante a contratos de sistemas específicos. O instrumento deve indicar o fundamento e conter as cláusulas necessárias, assinaturas e certificações exigidas para que o registrador possa qualificá-lo.

Forma inadequada pode gerar nulidade, não domínio informal

O artigo 166, inciso IV, considera nulo o negócio que não observa a forma prescrita em lei. Se a escritura era essencial e não há exceção, o instrumento particular comum não transfere o direito real. Dependendo de seus elementos, pode ser discutida conversão do negócio pelo artigo 170 ou obrigação de outorgar escritura, mas nenhuma dessas consequências é automática.

Pagamento integral e posse não corrigem sozinhos a forma nem substituem o registro. Podem sustentar pretensões contratuais, adjudicação ou usucapião quando os respectivos requisitos existirem, sem tornar proprietário quem apenas guarda um recibo.

A escritura não encerra a qualificação registral

Tabelião verifica identidade, capacidade, vontade e elementos do ato notarial. O registro examina continuidade, especialidade, disponibilidade e legalidade do título perante a matrícula. Assim, escritura lavrada pode receber nota devolutiva se faltar descrição, autorização, imposto ou encadeamento dominial.

Antes de assinar, obtenha matrícula recente, confirme titularidade, estado civil, poderes de representação e restrições. Depois, protocole o título e responda às exigências dentro da vigência da prenotação, em vez de tratar a escritura guardada como domínio.

O documento correto depende da operação concreta

Compra, doação, permuta, instituição de usufruto, garantia e partilha têm regras próprias. Valor, natureza do direito, participantes e lei especial definem a forma. Assinatura eletrônica pode ser admitida quando atende ao regime do ato e ao padrão aceito, mas não elimina exigência de escritura pública onde a lei a mantém.

Uma revisão prévia da minuta e da matrícula evita pagar por instrumento incapaz de registro, sem prometer que todo contrato particular abaixo do limite será aceito apesar de defeitos documentais.

Perguntas frequentes

Escritura pública já coloca o imóvel em meu nome?

Não. Ela pode ser o título necessário, mas a transferência da propriedade ocorre com o registro.

Todo financiamento bancário dispensa escritura?

Não. A força de escritura precisa decorrer da Lei 9.514 ou de outra norma especial aplicável ao instrumento.

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